27 de setembro de 2010

Conto: Vingança

Um dos meus contos favoritos.
Seria 18+ se fosse um filme eu acho, mas como eu tenho liberdade poética, deixa eu passar.
^_^'

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João Tavares



Vingança

O barulho seco dos tiros cessaram. Vários corpos caíram no meio do campo de futebol destruído. As barricadas improvisadas sustentavam-se pobremente. A ausência da lua deixava tudo mais escuro e ao mesmo tempo menos cruel, escurecendo o rio de sangue e os pedaços de corpos.
- Não tem como! Vamos embora!
- Cheguei até aqui, não vou voltar agora.
- Kaô, mano, não dá mais, eles acabaram com a gente! Todo mundo morreu! E nós vamos morrer também!
- Vou ficar, eles também morreram quase todos. Vingança não se foge. Vai pra casa você cuidar do seu filho. Eles vão pagar por levar o meu.
- Kaô, to contigo mano, mas isso é loucura.
- Vai embora. Não quero levar teu sangue comigo.
Kaô recarregou a arma enquanto via seu parceiro ir embora. Não tinha medo, nem alegria, nada. Vingança só. As imagens de seu filho sendo estuprado e assassinado na sua frente voltavam à sua mente com uma freqüência enlouquecedora.
- Papai, socorro, faz eles pararem. . .
Sangue.
Gritos.
Cordas.
 Risos.
 Sangue.
Kaô não conseguiu fazer nada. Não se liberou das cordas.
Depois fugiu, agora voltou por vingança.
Os tiros voltaram, eles eram 10 e ele 1. Não era difícil. Ele via brechas nas barricadas. Atrás do campo uma casa amarela. O objetivo.
Eram 7 deles agora e poucas balas.
Depois eram 5 e 1 cego berrante. Um grito prazeroso, mágico, deleitante. Corre. O suor e a dor o afetam igual.
Eram 2 e mais balas roubadas. Era divertido sentir o sangue no rosto. Quando ouvia os gritos dos inimigos, os gritos do filho de eternos doze anos cessavam. E era paz. Ele poderia até chorar. Logo depois não mais. O sangue escorria brilhante pelo corpo de seu filho. De sua perna, de sua boca, de seus olhos e o choro fino, mesmo baixo era ensurdecedor. Queria morrer. Mas não ainda. Agora só tinha 1, sem uma perna, ajoelhado e chorando na sua frente. Esse choro era seu paraíso, era uma música. Tinha que alimentá-la. Pegou uma pedra pontiaguda e a lua se livrou da nuvem. Uma pancada no rosto e mais gritos, mais música, mais prazer. Decidiu bater no pedaço de perna ainda preso no corpo. Uma música ainda mais alta, mais complexa, com mais instrumentos. Foi seu “Crescendo”. Ele implorava pelo “Grand Finale”. Agora matar o rosto que matou seu filho. Com mais um tiro seco, agora eram 0 e seus ferimentos não feriam. Era só a casa. Entrou. Uma mulher gritava contra ele com uma faca na mão. Uma mulher? O símbolo da vida? Uma possível mãe?
- Papai. . . – Tosse, sangue – Socorro. . . Papai.
Se em câmera lenta, os óculos da mulher explodiriam com sangue enquanto seus cabeços cobriam o interior exposto e a faca refletiria por um instante a luz da lua vinda da janela antes de cair no chão ao lado do corpo morto e da poça de sangue.
Sangue.
Chega. Queria o certo, queria o seu também. Virou o corredor para a sala. Um tiro em sua direção. Ele esperava. Virou o corpo de lado e a bala perfurou seu braço esquerdo. Uma picada de inseto. Revirou rápido o corpo e com a mão direita disparou uma só bala. Perfeito, uma arma voava ao chão, o inimigo caiu com um grito, uma mão no ombro. Kaô andou devagar, saboreando. Seu filho sorria na sua mente em uma memória falsa, sangue ainda no corpo frágil, pequeno.
- Obrigado papai. . .
Uma lágrima, todo seu desejo, sua vida realizava. Poderia ir ao inferno em paz. . .
Ainda não.
- Olá. Enfim nos encontramos de novo.
- Cara, pelo amor de Deus! Eu tenho família.
- Aquela vagabunda suicida?
- Cara. . . - se arrasta - pelo amor de Deus. . .
A pedra pontiaguda estava em seu bolso. Conveniente. Com a pancada ele ouviu ossos quebrando. Talvez alguns dentes. Certamente um olho estourado, sangue e um líquido viscoso, um cheiro forte e a música. A música maravilhosa. Agora com regente. Todos os tubos e cordas afinadas, anfiteatro lotado. As pessoas atônitas com o talento dos músicos e na primeira fileira seu filho sorridente, sem sangue e com uma gravata linda. E devagar a música era substituída pela realidade e seu filho chorava e implorava para o pai de novo.
Era hora. O cheiro do sangue infestava a casa. O corpo do inimigo tremia no chão, tossindo, estuprado, sem os dedos, unhas e os olhos, Kaô sacou a arma para acabar com aquilo, mas não foi assim com seu filho, ele aceitou o inferno por vingança e iria até o fim. Levou o revólver à cabeça e o último som seco ecoou na noite de luar.




João Tavares
Joaotavares.abcd@gmail.com

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