11 de fevereiro de 2010

Devaneio: A Rosa

Olá!
inaugurando a sessão de devaneios vou postar um texto que eu escrevi há algum tempo.
Eu acho que é existencialista ou ficção... não sei. É devaneio.
Não sei como enquadrar então coloco devaneio, uma loucura, algo abstrato como uma pintura impressionista. Ou um poema surreal.
Gosto que os textos costumam ser pequenos, então são fáceis de ler e diretos ao se entender.

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É isso.

João Tavares


A Rosa

Não estava tão escuro. Mesmo assim tudo que Carlos conseguia distinguir era o vermelho-sangue da rosa. Nem seu jarro entrava em foco. Só uma rosa fantasmagoricamente suspensa, emitindo o único raio de luz visível. Suas pétalas levemente inclinadas e seu caule cheio de espinhos pareciam a única e significante presença.
Fazia tempo que ele estava naquele quarto, tanto tempo quanto poderia se lembrar talvez.
Não são necessárias muitas linha pra descrever o aposento. Quatro paredes e um teto escuro. Uma cama com um colchão velho, mas inacreditavelmente confortável e uma rosa no meio da parede oposta a cama.
Ele não sabia como tinha chegado ali, já que não havia porta. Imaginou então que tivesse nascido ali. Mas isso implicaria em mais uma pessoa com ele. Sua mãe. Engraçado usar essa lógica. Isso queria dizer que havia um jeito de sair dali?
E se tivesse? Ele não queria sair.
Aquele colchão era confortável. Não precisava levantar. Ele não precisava comer.
Mas e a rosa?
Aquela o incomodava, sem ela não haveriam pensamentos, sem aquela rosa ele poderia deitar e dormir pra sempre, todos os seus sentidos tornariam-se ainda mais inúteis e ele mesmo poderia entregar-se a morbidez.
Mas algo precisava ser feito com aquela rosa.
Com um esforço menor do que ele imaginava, levantou-se da cama, mas andar era difícil. Passo a passo ele venceu a distância até a rosa e ao enxergá-la de perto, percebeu que uma aura iluminada a encobria.
Olhar para aquela rosa era dolorido e prazeroso. Seus olhos ficaram presos nos movimentos sutis das pétalas, no traçado curioso dos espinhos, na sua luz bruxuleante.
Precisava tocá-la.
Levantou a mão devagar. Não era necessário esforço físico, mas todo o seu cérebro parecia recusar-se a tocar naquele vermelho forte. Aquele exercício o despertava.
Seu ânimo crescia conforme chegava mais próximo da rosa. E por fim a tocou.
Ela era quente e macia. Todo o seu corpo reagiu ao toque. Nada seria igual novamente.
Não queria mais ficar deitado.
Ele procurava agora uma forma de sair daquele lugar, queria correr, pular, respirar de verdade, ver cores e queria ver... Espera! “Existem seres iguais a mim lá fora?”
Mas onde exatamente era “fora”?
Existia um “fora”?
Ele desejou com todas as força sair daquele lugar.
Como que obediente à seus pensamentos a rosa abriu-se e acompanhando seus movimentos as paredes caíram e o teto desapareceu, a luz intensa atingiu os olhos acostumados com a escuridão e ele não pôde enxergar nada por um tempo.
Mas seus pulmões receberam alegremente uma corrente de ar puro e gelado.

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