Olá! ^^"
Bom, esse é um dos maiores contos que eu já escrevi. Acho que o maior que eu consegui terminar na verdade. É meu estilo favorito de escrita. Ficção absurdamente absurda com um monte de elementos tirados de um monte de lugares diferentes, organizados e rearanjados de forma amadora. Escrevi há algum tempo, mas como dava muita preguiça de editar, demorei pra colocar aqui.
É ótimo saber que agora eu tenho back up desse conto, eu tinha medo de perdê-lo e mesmo sem gostar taaaanto assim dele, tem alguns personagens que eu não gostaria que desaparecessem ^^"
Bom, aí está:
João Tavares
Deserto
1
O dia estava quente como estavam todos os outros que ele poderia se lembrar.
O homem andava sozinho no deserto sem nenhum companheiro além do sol que tentava queimar sua pele, esbarrando nas pesadas vestes escuras que cobriam toda a sua pele, deixando visível apenas os olhos amarelos.
O vento soprava eternamente, levantando areia ao seu redor e dificultando a visão, não importasse a direção do trote.
No começo da viagem havia um camelo e um guia. Conforme os dias iam passando exatamente da mesma forma que os anteriores, ele percebia que o camelo andava mais devagar, em passos mais arrastados e sofridos. O guia que ele contratara na pequena cidade-oasis estava no limite e tinha avançado muito mais do que em qualquer outra viagem.
- Peço desculpas, mas esse é o meu limite. Se continuar andando na direção da constelação que lhe mostrei vai chegar onde deseja.
O homem olhou para o guia com respeito. Estava esperando uma desistência já há muitos dias. Sem dizer nada, no entanto, o homem preparou-se para desmontar do camelo e entregá-lo ao guia.
- Fique com ele – este respondeu – Você vai precisar. Mesmo que me devolvesse, ele morreria no caminho de volta. Melhor você levá-lo e usá-lo de alimento quando findar.
O guia tirou o turbante que o protegia do sol e mostrou seu rosto escuro, com muitas marcas e olhos negros profundos. E estendendo a mão:
- Foi um prazer. Espero que alcance seu destino.
O homem esticou sua mão para cumprimentar o guia do colo do camelo.
Esse momento havia já muito tempo.
O dia e a noite são bem diferentes no deserto. Se a pele está desprotegida do sol, não demora muito até queimar e apresentar bolhas enormes e dolorosas. Durante a noite, o frio é tão intenso que fica praticamente impossível dormir sem fogo por perto. O que confundia a cabeça do homem, no entanto, era que todo o dia e noite pareciam absolutamente idênticos. Logo, sem muito prestar atenção no tempo, perdeu a contagem dos dias em que estava no deserto. Deveria fazer algo próximo de 20 dias que o camelo morreu e de 30 que o guia se separou dele. Ele não saberia precisar mais do que essa contagem. Fazia dias que não bebia água e poderia fazer mais de uma semana que não comia.
Junto com o camelo ficou o nada que sobrava de lenha. As noites eram praticamente insuportáveis. Ele sentia mesmo sua alma sair de seu corpo e vagar em outros corpos enquanto caminhava automaticamente afundando na areia. Em seus sonhos frios, não via imagens reconfortantes. Via sempre o mesmo lugar. Parecia um templo. Tinha pilares gigantescos sustentando um hall de entrada inacreditável e suas paredes de pedra estavam sujas de areia.
O que movia esse homem eram dois pedaços de papel que estavam cuidadosamente embrulhados no bolso de sua camisa, envoltos depois por várias camadas de panos grossos.
O primeiro era um bilhete escrito a mão:
“Me perdoa querido.
Não poderia deixar nossa Anita morrer.
Eu tinha que fazer essa operação e tinha certeza que
se você soubesse ia fazê-la no meu lugar.
As chances de dar errado para mim são altas,
mas é certo que nossa pequena Anita vai sobreviver.
Não me importo de morrer pela vida da nossa filha.
Meu amor por você foi e sempre será
Eterno.”
O outro pedaço de papel fora arrancado de um livro antigo. Havia um desenho que representava o templo dos sonhos do homem. Embaixo carregava uma legenda:
“Poucos ou nenhum vai chegar.
Só os obstinados são aceitos.
Se tem medo da morte tome outro sentido.
Aquele que atravessar o labirinto do deserto
guiado pela flecha celestial terá seu desejo atendido.”
A noite havia caído.
A lua estava cheia agora, e a constelação da flecha celestial era completamente visível assim como nos outros dias. O homem estava exausto. Sua mente estava como em estado de espera. Seu pensamento vagava e ele não sabia por onde ou para onde, mas mesmo inconsciente seus pés continuavam a seguir, sua convicção continuava a impulsioná-lo.
Então como em todas as outras noites a que ele lembrava, seu corpo caiu derrotado na areia gelada. O vento soprava menos agora, cobrindo uma pequena parcela de seu corpo com areia.
Assim que seu corpo encostou no chão o homem fechou os olhos e adormeceu profundamente. Todo seu corpo estava exausto e sem energias. No milésimo de consciência antes de dormir, ele imaginou se iria conseguir levantar. Imaginou que precisava levantar. Custasse o que custasse. E então de fato adormeceu.
Em seus sonhos o templo estava na sua frente. Pintado do mesmo amarelo areal do deserto. Sua entrada aberta e o interior escondido por uma sombra profunda, tão escura quanto as noites sem lua do deserto. Ele estava de pé em frente ao templo. Ao olhar para o céu, o teto do templo estava na mesma altura das nuvens que passavam vagarosamente sobre o estranho deserto ao seu redor. Algumas árvores com um verde surreal rodeavam toda a extensão do palácio de pedra.
De dentro da entrada escura saiu uma voz feminina que o fez saltar.
-Volte.
O homem olhou bem para dentro do templo. Por um instante ele pensou ter visto dois olhos bem acima do chão.
- Volte e eu o ajudarei a viajar com vida.
- Não vou voltar.
Olhando de volta para a entrada do templo ele viu aparecer da escuridão suavemente uma fera gigantesca. Suas quatro patas eram da mesma espessura que as colunas que sustentavam o templo. Seus olhos vermelhos encaravam o viajante enquanto seus dentes pontiagudos roíam o chão de pedra e de sua boca saía um vento quente e assustador.
- Desista. Vá embora.
- Não.
- Seu desejo não pode ser atendido.
O homem não se moveu.
- Se você não for embora, não me deixará outra escolha.
O homem ainda não se moveu e a fera emergiu completamente das sombras, revelando todo o seu corpo colorido e todas as suas garras enquanto o sol quente banhava seu pêlo.
- Esse é meu último aviso. Ainda assim não vai desistir?
O vento parecia ter aumentado e a areia atingia as vestes do homem imóvel.
- Muito bem, não tenho escolha.
A fera soltou um rugido terrível que ecoou por todo o deserto, balançando a areia e bagunçando as nuvens no céu. E muito mais rápida do que seu tamanho aparentava, ela saltou com as garras a mostra em direção ao homem. Ele não se mexeu e quando a garra da besta enfiou-se em seu peito ele acordou em frente ao templo.
- Olá? Alô? Você está vivo?
O homem levantou-se e viu um garoto muito jovem ao seu lado.
- Olá! Você está vivo! Eu derrubei água na sua garganta, mas eu achei que não tinha mais jeito. Eu também trouxe comida se você quiser. Eu coloquei tudo ali naquele tapete. A maioria são frutas que eu peguei ali daquelas árvores. Ah e que falta de educação a minha, me esqueci de me apresentar. Meu nome é Yuri. É um prazer conhecer você. E você pode comer a vontade porque eu já comi tudo o que precisava,
O homem apertou a mão de Yuri e correu para comer o que o garoto havia trazido.
Yuri tinha seu corpo todo coberto por vestes que pareciam com as do viajante. A diferença era que sua cabeça estava descoberta, mostrando um garoto jovial, com no máximo treze anos de idade, olhos verdes muito claros e cabelos castanhos claros. Sua pele deveria ser muito clara, mas tornara-se escura pela ação do sol.
- Você está com fome né? Pode comer a vontade. Tem bastante comida por aqui.
O viajante continuou comendo até se sentir saciado. Ele achava que iria perder a vida, e sua memória estava voltando aos poucos. Ele lembrou perfeitamente do sonho que teve, o que era estranho, pois normalmente quanto mais tentava lembrar-se dos sonhos, a imagem ia ficando nublada, com os detalhes ocultos, até que esquecia completamente o lugar e os rostos que o visitavam durante madrugada. Mas como dito, dessa vez ele lembrava perfeitamente de todos os detalhes. A voz feminina que mandava o voltar, as garras da fera gigantesca que o ameaçava e a dor que sentiu quando suas garras penetraram seu corpo por um milésimo. O lugar em que sofrera o golpe ainda doía na verdade.
- Você tem certeza que está satisfeito? Pode comer o quanto quiser.
O viajante fez uma pequena referência em agradecimento e olhou para o imponente templo a sua frente:
- Como você chegou aqui? – Ele perguntou.
- Ah, você fala! Estava começando a ficar preocupado que não entendesse minha língua. Bom, essa é uma excelente pergunta e que infelizmente eu não vou poder responder. Tudo que eu posso falar é que foi por um sonho.
- O mesmo comigo.
- Você deve ter a marca então. Tinha uma fera no seu sonho?
O viajante fez que sim com a cabeça.
- Certo, então olhe onde ela o atacou.
O viajante afastou os tecidos que protegiam seu corpo, e lá estava, no seu peito direito uma marca estranha, que parecia muito mais com uma tatuagem do que com uma ferida.
- É igual a minha – Yuri puxou a manga de suas vestes e mostrou no braço esquerdo o desenho estranho.
- Sabe o que isso quer dizer?
- Não faço a menor idéia. – O garoto respondeu dando de ombros.
O deserto estava exatamente como sempre estivera. A diferença aqui era que em volta do templo um círculo surreal de árvores crescia vivo e brilhante. Um pouco mais adiante descia um rio relativamente abundante. Era um oásis de tirar o fôlego.
- Suponho que você queira entrar no templo? Pelos seus olhos seu desejo deve ser bastante importante. – Yuri perguntou depois de algum tempo.
- Então é por isso que você veio também?
- De certa forma. . .
- Você está aqui faz tempo?
- Não. Cheguei pouco antes de você. . . E é meio chato ficar te chamando de você. . .
- Me chame de Kazu. Mas já aviso que não é meu nome verdadeiro.
- Não tem problema, eu também te dei um nome falso.
Kazu gostou mais de Yuri depois de saber disso.
- Acho que não vale a pena ficar conversando aqui, por que não entramos e seguimos juntos? Não sei o que vai ter lá dentro mas preferia não ir sozinho.
- Certo, mas não temos responsabilidades um com o outro.
- Positivo – Concordou Yuri com um sorriso.
Os dois, homem e garoto, seguiram em direção ao templo enorme que crescia do deserto, escondendo as nuvens que deslizavam altas no céu e formando uma sombra em sua direção. Enquanto aproximavam-se do prédio gigantesco, o céu parecia mudar, a noite parecia crescer com muito mais velocidade que o normal. Logo em seguida, ainda enquanto andavam, o sol desaparecia completamente e a lua tomava seu lugar, para poucos minutos depois ser substituída novamente pelo astro brilhante. O dia e a noite revezavam-se como se o tempo estivesse acelerado, fazendo a sombra que o templo e as árvores projetavam deslizar sobre a areia em velocidade.
Quanto mais perto do templo eles chegavam, maior era a velocidade com que o fenômeno ocorria, resultando que no tempo em que estavam nas escadas dianteiras do palácio, seu tempo não era mais tempo, eram raios de luz e escuridão intercalados.
Os dois seguiam sem parar. Reparavam no fenômeno ao seu redor, mas enquanto a luz do sol, a sombra do templo, a noite e a luz da lua batiam em suas vestes praticamente ao mesmo tempo, eles continuavam a andar para a entrada do templo.
- Alguma coisa tem chances de fazer você desistir lá dentro?
Kazu fez um movimento negativo com a cabeça, arrancando um sorriso sincero de Yuri enquanto atravessavam o portão gigantesco e a escuridão do templo os engolia.
No momento em que entraram no templo, a entrada que utilizaram foi bloqueada e ambos ficaram de costas para uma parede perfeita de pedra amarela e encarando um corredor sem fim iluminado por tochas infinitas.
- Já esperava por essa. Pelo menos nenhum sinal da besta.
Eles começaram a descer o corredor. O silêncio só não era absoluto porque seus passos ecoavam nas paredes areiadas. Não havia movimento no chão além deles. Nenhum animal. O fogo crepitava sem som algum. Não era um lugar comum.
- Engraçado, parece que não tem vento aqui – A voz de Yuri ecoava muitas vezes.
- Vento eu posso garantir que tem. Mas não tem som além do nosso.
Não depois de muito tempo, os dois perceberam que mais a frente o corredor terminava em escuridão. Tornaram os passos mais lerdos, mais pensados e quando aproximaram-se o suficiente, viram que tratava-se de um precipício. Yuri tirou a tocha mais próxima da parede e a utilizou para enxergar melhor o buraco a sua frente. Quando deitou no chão com a tocha e deslizou para encarar o fundo da fenda, percebeu que a tocha era inútil. No fundo do penhasco que deveria ser da altura de um prédio capaz de encostar nas nuvens, haviam enormes pedras roxas brilhantes em forma de espinhos formando uma espécie de rio imóvel. Sua luz bruxuleante tingia o rosto curioso de Yuri e de Kazu que também chegara-se para conferir. Na queda a sobrevivência era descartada.
O outro lado do penhasco apresentava a continuação do corredor largo, mas as paredes deste não eram amarelas como as do primeiro, eram roxas em várias tonalidades e brilhantes em várias intensidades, assim como eram as pedras embaixo.
- Como atravessamos?
- Era no que estava pensando.
Os dois estavam sentados.
- Será que você consegue me jogar para o outro lado?
- E como eu passo depois?
- Hummm. . . Boa pergunta. . . Você não tem uma corda?
- E no que ajudaria?
- Você poderia me jogar para o outro lado, amarrar uma ponta da corda aqui, eu amarrava a outra ponta do lado de lá e você atravessava.
- E amarraríamos a corda onde? No vento?
- Heh, é bom saber que pelo menos você tem senso de humor. . .
Ambos ficaram em silêncio por um tempo. Yuri procurava alguma coisa que ajudasse a travessia e Kazu parecia ponderar alguma coisa.
- Desisto Kazu. Só sei que não podemos desistir aqui. Eu não sei por que eles colocam tantos obstáculos se sabem que não vamos desistir. E como se pudéssemos voltar pra casa agora. . .
Como que em resposta as palavras de Yuri, uma escada de pedra começou a se desenhar do teto e depois de construída levava a algum lugar em cima do corredor onde estavam, sobre o desfiladeiro.
- Parece que tem alguém querendo nos ajudar.
Ambos seguiram a escadaria sem proteção. Yuri sentiu-se meio enjoado quando a escada fazia uma volta em si mesmo e ele foi obrigado a olhar para as pedras pontiagudas a muitos metros, possivelmente quilômetros, abaixo dele. A escada acabava em um pequeno aparato de madeira, que estava seguro por uma corda e esta deslizava até o corredor roxo. Era uma espécie de meio de transporte rudimentar aparentando uma madeira muito velha e com buracos em várias partes.
- Será que aguenta os dois ao mesmo tempo?
- Tem que aguentar. A corda desce, só podemos fazer uma viagem.
- Você pode usar o carro e depois eu desço só pela corda.
- Não gostei da idéia. Prefiro irmos ambos ao mesmo tempo.
- Você que sabe, eu sou leve mesmo.
Yuri subiu primeiro no carro de madeira e foi seguido logo por Kazu. Ambos evitaram olhar para baixo.
- Boa sorte pra nós.
Yuri sorriu e puxou o freio que estava do lado do carro.
No mesmo momento a espécie de bonde de madeira começou a atravessar o precipício, mas ao contrário do que os dois pensavam a viagem era devagar. A roda que encostava na corda e era responsável pelo movimento rolava lentamente e assim seguiu até o meio do caminho. As pedras roxas pareciam aumentar a intensidade do brilho.
- Estamos parando ou é impressão minha? – O rosto preocupado de Yuri era pouco nítido na escuridão roxa.
- Cuidado!
A corda cedeu e por menos de um segundo os dois não conseguiriam segurar-se na corda e deslizar para o lado do corredor roxo, batendo com violência na parede do precipício. O grito de Yuri ecoou por todo o espaço.
O bonde caiu em direção das pedras roxas e o barulho da madeira estilhaçando-se fez o coração de Yuri tremer.
Ambos estavam bem seguros na corda, mas a corda não parecia bem segura onde quer que estivesse.
Yuri segurava-se em cima de Kazu.
- Ela não vai agüentar mais muito tempo.
E enquanto Yuri falava a corda desceu bem um metro com um tranco violento, fazendo ambos segurarem-se com ainda mais força.
- Argh! Que seja, não vou ser culpado pela morte de mais um.
Kazu ouviu Yuri resmungar essas palavras e no momento seguinte, sentiu as pernas do garoto o segurarem pelo ombro. Yuri movimentava-se com perfeição pela velha corda. Kazu assustou-se mas não teve tempo de perceber o movimento extraordinário de Yuri que com uma força descomunal atirou o viajante em direção ao corredor roxo onde ele se agarrou e alcançou as paredes roxeadas.
Assim que alcançou a segurança do novo corredor, Kazu voltou-se para Yuri no instante exato em que a corda se soltou e ele conseguiu ver o garoto caindo em direção às pedras pontiagudas.
A visão de Yuri não era tão desesperadora, ele enxergava Kazu dentro do corredor e caia sem olhar para onde, seus braços estavam inconscientemente levantados em direção do companheiro recém-encontrado. Não era assim tão ruim. Por um milésimo de segundo a mais ele conseguiria ter se recuperado do movimento que fizera para arremessar Kazu no corredor e conseguiria subir também, mas a corda arrebentou na hora exata. Ele já ia fechando os olhos em definitivo quando sentiu um vento forte ao seu redor. Sua queda foi freada e ele seguia suavemente em direção ao corredor. Quando se aproximo mais viu Kazu iluminado pelo roxo das paredes, com a palma de uma mão virada para cima e olhando fixo para ele. No instante seguinte ele estava no chão também roxo, buscando o ar com todas as forças e escutando o batimento descontrolado do coração.
- V-Você controla o vento?
Kazu não respondeu.
- Não precisava ter me contado antes, mas acho que isso teria facilitado a nossa vida, não?!
- Eu disse que não teríamos responsabilidades.
- Mas você controla o vento! – Yuri ainda arfava com dificuldade e continuava no chão.
- E você é um acrobata. Temos nossos segredos. É melhor levantar e seguir caminho, não sabemos quanto tempo isso pode demorar.
E virou as costas para Yuri, seguindo o corredor roxo que não mostrava fim.
3
O corredor de pedras roxas era tão ou mais longo que o anterior de pedras amareladas. A vantagem desse era sua iluminação natural, provida por aquele brilho enigmático das paredes, do chão e do teto. A temperatura agora estava o oposto da encontrada no deserto. Quanto mais eles avançavam, mais frio o ar ao redor deles se tornava.
- Ainda bem que temos estas vestes não é? Assim não passamos frio. É sorte termos que usar elas pra nos proteger do sol também.
Kazu respondeu com um som gutural.
Depois de algum tempo de caminhada, eles conseguiram enxergar o fim do corredor.
Ambos apressaram o passo e alcançaram um salão gigantesco.
Esse novo ambiente era circular e construído inteiro por aquelas pedras roxas. No meio do salão um pilar do tamanho de um prédio erguia-se até o teto ao longe, e era desse pilar que emanava a principal fonte de luz do lugar. Parecia mesmo que toda a luz das outras rochas derivavam deste pilar central. O chão não era regular, em todos os lugares surgiam rochas maiores e algumas pareciam guardar entradas de cavernas.
- Ei Kazu, lá do outro lado tem uma porta, parece que é pra lá que vamos não é?
Kazu não tinha reparado na porta antes de Yuri a mostrar. A porta era do tamanho do homem e era a única coisa que não brilhava ou refletia aquele roxo enigmático.
- É pra lá que vamos então. Mas cuidado.
Yuri confirmou que entendeu com a cabeça e ambos começaram a caminhada, primeiro passando por uma descida suave e depois ganhando as pedras entre pulos no terreno irregular.
Quando eles tinham passado um pouco adiante do pilar central Kazu fez um gesto brusco para Yuri parar de caminhar, o garoto obedeceu.
- O quê. . . ?
Kazu levou o indicador à boca para calar Yuri.
Com um pulo, um homem apareceu na frente dos dois, a menos de dez metros de distância.
- Bem vindos. Eu sou o guardião da bruxa. Se vieram até aqui passaram por armadilhas e caminhadas longas. Posso entender que seus desejos são verdadeiros. Mas para atravessarem aquela porta terão que pegar a chave que está comigo.
O homem parecia jovem e usava vestes negras que cobriam todo seu corpo e um capuz que escondia seus olhos, os viajantes só conseguiam enxergar sua boca enquanto falava.
- E como fazemos isso?
- Quando eu fiquei sabendo que tínhamos uma criança aqui, me assustei, mas vejo que seu desejo também é verdadeiro.
- Obrigado, mas ainda não respondeu minha pergunta.
- Vocês pegam a chave do jeito que conseguirem. E podem trabalhar juntos.
Kazu adiantou-se e ao levantar a mão direita, todo o vento no salão pareceu responder seu chamado.
- Interessante. Fazia tempo que não entrava um controlador aqui.
E a luta começou em uma fração de segundo. O homem agitou as mãos em uma espécie de dança e delas saíram labaredas de fogo intensas. O brilho forte das chamas atordoou a vista de Kazu por um tempo, mas no instante seguinte, uma parede invisível e violenta de vento o protegeu das labaredas. Yuri que também foi alvo das chamas esquivou-se rápido com saltos de costas e desapareceu como um raio.
Quando as labaredas insuportavelmente quentes pararam de sair das mãos do homem encapuzado Kazu correu rápido em direção a ele, que em resposta jogou o corpo para trás na tentativa de escapar do golpe de mão do viajante. Quando o guardião encerrou a seqüência de pulos a vários metros de distância, percebeu que seu rosto possuía um talho por onde corria um filete de sangue. Enquanto ele passava a mão no ferimento Kazu soprou de onde estava e o capuz do guardião caiu revelando um jovem de traços bonitos, pele branca, com cabelos e olhos extremamente escuros.
- Muito bem. Uma lâmina de vento. Mas está longe de acabar.
O homem preparou-se para correr na direção de Kazu e este já estava preparado para isso quando Yuri apareceu atrás do guardião e acertou um chute em cheio em seu rosto.
Ainda no ar, Yuri esticou a mão na direção da chave, que estava segura na cintura das vestes do guardião. Este, no entanto, percebendo as intenções do menino o segurou pelo outro pé e quando Yuri havia encostado na chave, foi atirado com violência em direção ao pilar brilhante. Um vento forte o impediu de machucar-se no impacto, enquanto Kazu e o guardião travavam um combate corpo-a-corpo veloz, onde por vezes viam-se labaredas apagadas rapidamente pelo vento e algumas gotas de sangue que brilhavam nas pedras roxeadas.
Kazu recebeu um forte golpe no rosto e era arremessado à distância quando foi agarrado por Yuri.
- Não tem jeito de nós pegarmos a chave assim. – Dizia Yuri enquanto ajudava Kazu a se levantar e este limpava o sangue da boca.
- Você vai ter que confiar em mim. Aumente a minha velocidade.
- Você é muito novo para uma batalha dessas.
- Eu sou muito novo para muitas coisas, mas eu estou aqui, não estou?
Kazu ponderou, mas não havia o que ponderar. Olhou para o garoto e acenou positivamente.
- Certo, aqui vou eu.
Enquanto o garoto corria na direção do guardião, um vento impulsionava seus movimentos, os fazendo ficar mais rápidos do que já eram. A velocidade da batalha que se seguiu mal poderia ser assistida por olhos destreinados. Os golpes acrobáticos de Yuri eram quase indefensáveis para o guardião, e quando este recuperava-se rápido de um deles e tentava contra-atacar com suas chamas elas eram logo apagadas pelo vento poderoso que envolvia o garoto.
Yuri já havia alcançado a chave por várias vezes mas não tivera sorte ainda. Seus golpes ficavam mais lentos pelo cansaço e o guardião mantinha a velocidade.
- Cansando?
- Você que pensa.
O garoto afastou-se por um milésimo:
- Kazu, agora!
Um vento violentíssimo atirou Yuri contra o guardião e ambos rolaram juntos pelas pedras pontiagudas para terminarem imóveis em um completo silêncio.
Kazu apressou-se pra onde eles estavam. Yuri estava de bruços no chão e o guardião estava sentado um pouco mais distante com a cabeça baixa e desacordado.
- Yuri! Moleque!
Yuri virou-se devagar e quando viu Kazu sorriu e mostrou a chave nas mãos.
- Eu disse que era perigoso.
- Mas era o único jeito. Só que eu não posso continuar. Você vai ter que seguir sozinho.
- E essa é toda a determinação que você disse ter?
Yuri sorriu e desmaiou.
Kazu o colocou em suas costas, pegou a chave em suas mãos e rumou para a porta.
- Parabéns – Disse o guardião ao lado da porta quando Kazu havia distanciado-se um pouco – A chave era simbólica. Espero que consigam realizar seus desejos. Fazia tempo que eu não me divertia tanto. – ele encostou na porta, essa abriu e em seguida ele desapareceu na escuridão de uma das pedras em volta.
4
Kazu seguiu, entrou na porta e não havia nada lá dentro.
Assim que aprofundou-se no breu, a porta fechou-se com um baque surdo e ele estava imerso na mais profunda escuridão.
Era impossível atentar-se até mesmo ao contorno do próprio corpo. Yuri estava inconsciente em suas costas e pesava pouco, não atrapalhava em nada sua movimentação. O frio na escuridão era ainda maior do que fora no corredor anterior. Controlando o vento a sua frente como forma de precaução e de identificar o corredor escuro ele seguiu lentamente. Não muito tempo depois ouviu a voz feminina:
- Muito bem, viajante, vejo que conseguiu completar sua jornada. É a hora da verdade.
A escuridão aos poucos foi clareando ele percebeu que estava no meio de uma noite de céu estrelado. Um campo verde e com árvores espalhadas estendia-se ao seu redor e ao longe ele conseguia ver as luzes de uma imensa cidade, seus prédios e suas torres brilhando em uma agitação e movimentação eternas.
A sua frente um chalé de madeira erguia-se rodeado pelo campo, em seu jardim uma mulher muito bonita com cabelos pretos muito longos e coberta com vestes largas e escuras estava a sua espera.
- Pode deixar Yuri ali naquele banco. Muito obrigado por trazê-lo de volta.
- De volta?
- Longa história, talvez um dia você entenda.
Kazu obedeceu.
- Estamos em outro mundo não estamos?
- E você diz isso porque...?
- Eu não posso controlar o vento daqui.
- Naturalmente.
- Você é a bruxa que realiza desejos?
- Correto, mas eu suponho que você saiba que não os faço de graça.
- Imaginei.
- Você está disposto a pagar o preço do seu desejo?
- Se não estivesse, não estaria aqui.
- Certo. Vejo que o seu desejo é difícil de realizar.
Kazu não respondeu. O vento corria livre de sua influência entre os dois. Yuri continuava desacordado, as árvores jogavam folhas no chão aos poucos, aviões gigantescos passavam sem barulho algum por cima de ambos.
- Você quer trazer uma pessoa de volta à vida não é isso?
Kazu não respondeu.
- Vejo ainda que esta é sua pessoa mais importante.
- Você pode trazê-la? Se não puder, isso foi perda de tempo e eu preciso procurar outro meio.
- De fato, este seria um desejo impossível. Seria necessário quebrar a ordem de todos os mundos e dimensões. O mundo que você conhece é muito limitado e você não compreenderia a complexidade do seu desejo.
- E nem quero entender. Só quero saber se você é capaz de realizá-lo.
- No seu caso sim. Esta pessoa morreu por alguém não foi?
Kazu acenou positivamente com a cabeça.
- Somente por isso essa pessoa merece uma “segunda chance”, mas o preço não torna-se mais barato por causa disso.
- Eu quero uma vida de volta. Acho que tenho que pagar com outra vida não é isso?
- Não. As leis não são tão simples. O seu desejo é o mais difícil de ser atendido, por isso você deve pagar com a coisa mais preciosa que você possui.
- Você não quer dizer a vida da minha filha. . .
- Não. Você não a possui. O preço tem que ser seu, só seu. O desejo é seu. Você está passando por cima até mesmo da vontade desta pessoa que “morreu”. Você tem ciência de que talvez até mesmo essa alma não queira ter uma nova vida?
- Sim.
- E mesmo assim você quer trazê-la de volta?
- Sim. Meu desejo é que ela volte para o mundo como ele está hoje. Com minha filha já curada.
- Seu desejo é possível.
- E qual o preço?
- Sua coisa mais valiosa, como disse. Os sentimentos que esta pessoa nutria por você. Ela vai voltar, mas não vai ter os sentimentos que ela tinha por você. Ela vai lembrá-lo, mas nunca mais vai amá-lo.
- Eu aceito.
- Você entende as conseqüências?
- Sim
- Pois bem, seu desejo será atendido.
- Antes, o que aconteceu com Yuri?
- Você deve me pagar com este bilhete que carrega no bolso para eu informá-lo isto.
Kazu obedeceu e assim o bilhete queimou no momento em que ia entregá-lo para a bruxa, apagando assim qualquer lembrança que ele tinha da mulher.
- O preço de Yuri é ficar preso no tempo em que acaba da viver. Há muito ele já falou comigo, mas esquece-se disso toda vez que chega aqui e faz seu pedido de novo. Ele já atravessou este tempo inúmeras vezes.
- Não há nada que eu possa fazer?
- Você não tem mais com o que pagar seus desejos. A única coisa que valia para você perdeu-se, quebrou-se. E mesmo que ainda tivesse, seria insuficiente. É um preço que o Yuri deve pagar sozinho, ficar preso nessa idade para que seu erro possa ser desfeito.
Kazu olhou para o garoto que parecia dormir agora. Chegara ali graças a ele, graças a ter o conhecido.
- No tear que tece as nossas vidas não há pontas soltas, todos os encontros são revestidos de significados. Você conheceu Yuri porque teria que conhecer, seu encontro não será um evento sem conseqüências no universo.
Após as palavras da bruxa terem sido carregadas pelo vento, uma porta apareceu a uma pequena distância, sem batente ou sustentação, só uma porta no meio do campo.
- Seu desejo foi cumprido. Atravesse aquela porta e encontre a vida que escolheu.
Kazu já estava com a mão na maçaneta quando virou-se e perguntou.
- Vamos nos ver novamente?
- Não possuo o poder de enxergar o futuro, mas você não pode encontrar este templo uma segunda vez.
Kazu girou a maçaneta e atravessou pela porta que aparentava dar em lugar nenhum, apenas do outro lado naquele campo verdejante rodeado por aquela cidade gigantesca. Não foi o que aconteceu.
Nota: A bruxa é uma personagem tirada do manga “xxxHolic” do competentíssimo estúdio CLAMP, assim como são muitas de suas falas.
João Tavares
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