Ói eu!
Aproveitando pra postar alguns contos pra dar o start no blog, vou postar "Inocência" agora.
Conto interessante e bastante difícil de escrever por razões óbvias, mesmo assim eu gosto bastante dele.
Espero que também gostem.
Em cima o link pra download e no post o conto na íntegra.
João Tavares
Inocência
Depois de muito, muito, muito insistir eu consegui que sentássemos na última poltrona da última fileira. Não que daqui a imagem do filme fosse melhor, mas eu sempre fui muito tímido e ele sabia disso. O problema é que ele também sabia por que eu era extremamente (ridiculamente na verdade) tímido em situações como essas. Ele não gostava disso e eu entendia. Mas eu não poderia deixar de me sentir desse jeito, envergonhado. Envergonhado não, acho que a palavra deveria ser mais forte. Eu me sentia um criminoso, fazendo algo proibido, destruindo um tabu. Buscando a minha felicidade e roubando a inocência de outros para isso. Claro, Felipe descordava.
- Eu te amo . . . – Eu disse bem baixo quando nos sentamos nas últimas das cadeiras desertas.
- Não parece . . . Parece que você fica escondendo que gosta de mim . . .
Eu não respondi. Envolvi os meus braços no dele e encostei em seu ombro. Parece que ele já estava melhor, porque ele acariciou levemente meus cabelos com a mão livre.
- Você sabe que a gente não precisa se esconder. Não fazemos nada de errado.
- Eu sei que não – Minha voz era inutilmente fina e mais fraca que a dele. Não sei como ele me levava a sério – É que é tão mais confortável sem ninguém olhando.
- Bom, confortável ou não, você vai ter que se acostumar porque pelo tamanho da fila o cinema vai encher. Eu não sei por que todo mundo quer ver esse filme . . .
Ele percebeu que o seu último comentário não me alegrou muito.
- Ah, você sabe que eu não gosto desse tipo de filme. Romance é sempre bobo, a história é sempre igual e fica meio difícil de eu me colocar no lugar deles, você sabe . . .
- Só porque eu não sou uma daquelas mulheres lindas, sem nenhum defeito?
Ele riu bastante com isso.
- Não bobinho. – Ele olhou nos meus olhos – Porque nenhuma delas desperta em mim o que você desperta. Nenhuma delas faz meu coração bater assim tão forte. Nenhuma delas é linda o suficiente para eu imaginar você no lugar delas.
Assustado com a declaração espontânea, eu devo ter usado uma expressão muito estranha, por que antes de me beijar, seus lábios estavam sorrindo leve.
- Ah – Ele disse com uma voz muito entusiasmada, afastando seus lábios e abraçando a minha cintura – Parece que você realmente não vai conseguir se esconder.
Ele estava certo. As cadeiras ao nosso redor já estavam quase completamente ocupadas e as silhuetas continuavam a subir pelas escadas procurando lugares vagos. Nas cadeiras imediatamente a nossa frente, um casal ria e conversava entre beijos, ele sempre acariciando os cabelos dela sem nem tentar esconder. Eu tentei disfarçar minha inveja.
Eu comecei a me rearranjar na confortável cadeira, me afastando de leve do abraço de Felipe, mas ele percebeu meu movimento e eu poderia ter tentado me soltar com toda a minha força que ele não iria se mover.
- Ah. Vai fugir agora? Não senhor. Eu já sentei aqui por você, agora vai ser do meu jeito.
Era uma boa coisa as luzes serem tão fracas, eu nunca senti meu rosto tão quente. Encostei mais ainda minha cabeça no seu braço, tentando esconder meu rosto. Quem sabe as pessoas não percebessem que eu também era um homem.
Quando o filme começou, todas as cadeiras da sala estavam ocupadas. Uma família estava sentada ao meu lado: pai, mãe e filhos. Os menores não pareciam se importar muito com a nossa presença, acho que eles estavam com a atenção muito presa no filme. Já o desconforto dos pais era visível. Quase palpável.
Com o tempo eu me senti mais confortável. Era ótimo poder assistir um filme com Felipe. Era inexplicavelmente bom ficar assim, encostado em seus braços enquanto ele passava seus lábios pelos meus cabelos. Parece que pouco depois, o filme já tinha perdido a sua atenção. Enquanto na tela passavam imagens de pontes, e construções altas com uma música de batidas leves, ele acariciou suavemente o meu rosto e me beijou por um tempo. Eu ouvi um barulho rápido do meu lado e quando olhei, o pai da família já descia a passos rápidos pela escadaria, desaparecendo pela porta invisível.
Eu não sei se isso assustou Felipe, mas o beijo que seguiu estava carregado de insegurança.
Assistimos mais um pouco do filme, minha atenção mais focalizada nos dedos brincando impacientes no meu braço do que na tela gigantesca.
Não muito tempo depois, eu senti outra pessoa se aproximando. Foi tão sutil que eu não me surpreenderia se ninguém mais houvesse percebido.
- Vocês poderiam me acompanhar, por favor?
- Por quê? – a voz de Felipe carregava uma ponta de ameaça.
- Eu acho que você sabe do que se trata.
Mais pessoas nos olhavam e não importa se eu era mais fraco ou mais forte, eu ia sair daquela sala nem se eu tivesse que me transformar em um rato ou em um pássaro pra isso.
No entanto, eu não precisei de mágica. Felipe levantou-se pouco depois e já acompanhávamos o homem pelas escadas. Enquanto passávamos pelas crianças da família ao nosso lado, o garoto mais novo acenou com um sorriso pra mim, formando a palavra ‘tchau’ em silêncio, antes de ser repreendido pela mãe. Depois de descermos as escadas, passamos pela porta escura e enfim pelo corredor iluminado. Seguimos em silêncio de mãos dadas. Felipe estava bastante tenso. Parecia ter algo como culpa em seus olhos.
O homem nos levou até um aposento com uma mesa de trabalho redonda e várias cadeiras.
- Sentem-se, por favor.
- Não será preciso. – A voz de Felipe estava ainda mais forte que o normal.
- Vejam, eu odeio estar fazendo isso, então vamos direto ao assunto. Um senhor me disse que vocês estavam fazendo . . . é . . . coisas indecentes dentro da sala.
- Indecentes?
- Sim.
- Como por exemplo?
- Se. . . Beijarem.
Eu achei que eu estivesse sentido meu rosto quente dentro da sala do filme. Não era nada comparado ao que eu estava sentindo agora.
- E você entende isso por indecente? Porque, se for assim, havia um casal na nossa frente que parecia ir muito além de indecente . . .
Era assustador como Felipe estava. Eu tentei apertar sua mão tão forte quanto ele apertava a minha na esperança de acalmá-lo. Sem sucesso.
- Você entendem que como gerente, eu . . .
- Olha. Nós entendemos. Não concordamos, mas entendemos. Podemos ir embora então, certo? – Droga. Como eu queria que minha voz fosse mais forte!
- Claro. Agradeço a compreensão. Aqui tem ingressos para vocês voltarem em outras sessões...
- Nós não vamos precisar – Felipe – Não voltaremos. Você poderia nos devolver o que gastamos e estamos fora daqui.
O gerente pareceu satisfeito o bastante. Ele devolveu nosso dinheiro e sem ouvir mais uma palavra Felipe me arrastou para o corredor iluminado e quando voltamos para o Shopping onde ficava o cinema, ele soltou minha mão e andamos como amigos por um tempo. Calados. Até que ele se sentou em um banco com as mãos cobrindo o rosto.
- Desculpa . . . Eu . . . Eu . . . Eu não queria que você passasse por isso.
Parecia que ele estava à beira de lágrimas e eu não entendia por quê. Eu sempre fui tímido, mas se ser expulso de uma sala de cinema por um pai mais preconceituoso que seus filhos fosse tudo o que eu tinha que sofrer pra ficar com ele, então ótimo. Eu faria isso quantas vezes fossem necessárias.
- Ei, Felipe – Eu disse acariciando seu rosto – Vem até aqui . . .
Ele tirou as mãos do rosto e de fato seus olhos estavam levemente vermelhos. Eu segurei suas mãos e o levei até uma barra de ferro que protegia as pessoas de uma queda pelos tantos andares cheios de lojas, de sons e de pessoas do Shopping. Quase todos poderiam nos ver daqui.
- Eu te amo e é o que importa. Aquele filme nem era tão legal mesmo . . .
Abracei seu pescoço, encostei o meu corpo no dele e o beijei como ainda não tinha feito. Com a certeza de que era o que eu queria. Eu pagaria o preço que fosse por isso.
Ele me abraçou e o que eu mais estranhei foi que meu rosto não corou. Eu não gostava, mas pelo menos não me importava com as centenas de olhares que sentia em nossa direção.
João Tavares
Meu Deus!!Depois de José Alencar com certeza virá João Tavares!!Que lindo!
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