8 de maio de 2010

Devaneio: Limbo

Olá!
Esse devaneio tem uma história interessante.
Não há muito tempo, uma pessoa conhecida muito querida teve complicações no parto. Sérias complicações.
Em dado momento, estava quase certa sua morte e provavelmente a do filho. Era uma aflição geral. Então comecei a escrever. Comecei a escrever o que eu sentia que iria acontecer, o que me refletiam os pensamentos subconscientes que eu não contava pra ninguém (nem pra mim mesmo).
Bom, não preciso dizer o encerrar da história porque fica implícito no devaneio.

Aí está:


João Tavares

Limbo
A mulher andava leve pela rua completamente abarrotada de pessoas. Rodeando a calçada, lojas imperiais erguiam-se e escondiam o sol dos pedestres. Ela andava como sozinha na multidão. Ela andava confortável, o vento encontrava passagem para balançar o seu vestido e seus cabelos. Nenhuma loja a interessava. Não mais.
Nenhuma vitrine interessante. Essa de calçados não, vestidos caros eram inúteis, aquela de roupas para bebês. . . Bom, aquela de roupas para bebês talvez fosse interessante, muito interessante já que fazia seu corpo leve ser puxado em direção ao vidro. Aquele macacão verde é interessante. . . ou aquele azulzinho?
Com um sorriso abafado ela tenta entrar na loja e lá dentro sua alma deleita-se com o que vê. São tantas crianças, tantos garotos, tantos rostos semelhantes, tantas opções de cores tingindo suas peles. Poderia ser branco como ela, ou negro como pai. Talvez a cor mais bonita de todas: a mistura da irmã. Ou ainda uma tonalidade nova, mais clara, mais escura, mais diferente. Todos eles estavam lá. Todos eles a olhavam e lágrimas doces desfilaram em seu rosto. Tantos e um não posso segurar? Tantos e um não posso ver crescer?
Nesse limbo perdido, nesse espaço agora vazio. Sem pessoas. Sem a multidão. Os prédios sem luz, as nuvens escuras, o céu sem mais luz. Minha luz é essa pele. Essas peles, essas cores, esses olhos, não vou não viver. Não vou não tocar. Eu preciso viver, viver para esses olhos, viver por essa janela, essa janela de vidro gelado e minha passagem pra um universo tão quente, tão cor, tão. . . vivo.

João Tavares

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