24 de abril de 2010

Devaneio: Chuva

Devaneio bem devaneio mesmo.
Acho que com uma escrita fraca mas eu gosto do contexto.
Enfim, aí está.


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João Tavares




Chuva


Ele vinha descendo a rua com a lua nos calcanhares. Os prédios cinzentos formavam uma massa e a chuva leve cortinava a visão como a verdadeira cortina transluz o sol. A névoa da sua mente era mais densa. Difícil explicar. Se perguntado não diria, mas no espelho sentia o vazio, o nada, a falta. O problema, ele achava, nem era a sensação de vazio porque sem fazer nada é possível viver. É impossível, espelho, não querer fazer. Não querer fazer nem nada. Não achar sentido. E essa era sua maior angústia. Não achar sentido. Em dias de sol as pessoas vão à praia se refrescar, jogar, comer, comprar, falar, respirar. Sentido nisso? Ele via o mesmo que ele vê em pessoas no shopping, em pessoas nas lojas e em pessoas nas universidades. O sem-sentido. A pergunta era se não ter sentido era suficiente para ser um sentido. Sustentar essa posição poderia dar sentido? Ele pensou que talvez, já que para explicar o nada ele recorreria a tudo. Nesse tudo algo encontraria e nadaria nessa poça segurando-se ao fiapo do naufrágio. Mas isso o fez pensar no nada mesmo. No nada onde não há debate, na falta de sentido ideológico tão absoluta que nem sustentar uma posição era necessário. Ele pensou e a rua andou. Se fizesse nada seu corpo continuaria assim, sua mente estagnada. Possível? Tentável. Uma mente muda é morta. Morta. Mas matar a mente? Matar seu ser? Simples, se não havia sentido pra nada não haveria sentido aqui também. Ou será minha mente dando razões pra se salvar? Ele pensou que melhor seria estar vivo e esperar. A verdade é que sua mente implorou por vida. Medo da morte. Medo. Então era isso. Não era falta de sentido ou discussões vãs, era medo. Medo de quê? Ele pensou em destrinchar o medo, quebrar suas engrenagens e desmontar seus componentes, mas a rua acabou.
E ele entrou no prédio seco.

João Tavares

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