23 de dezembro de 2009

Conto: Luz

Ói eu!
Tomado pelo espírito natalino, escrevi esse conto que se passa na véspera de Natal.
Não vou falar mais pra não estragar. Talvez tenha ficado um pouco longo, mas eu espero que não cansativo.
Para baixar o conto é só clicar em um dos links baixo e seguir os passos descritos pelo mirror. Para ler aqui pelo blog mesmo, é só clicar na postagem. Qualquer dificuldade, por favor avisem!

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Por favor comentem!
Jt






Luz


As luzes, pessoas, prédios, árvores e outros carros desfilavam pela janela grudada no meu rosto. Nada disso de fato despertava a minha curiosidade. Talvez as luzes de natal fossem uma boa atração, sempre distraíram minha mente. Eu sempre achei engraçado como aquele piscar monótono e sem alegria alguma poderia me parecer tão familiar e aconchegante. As cores são sempre as mesmas e o ritmo do piscar repete-se em algo em torno de dois em dois segundos, mas ainda assim, aquilo reserva uma magia, um espetáculo interessante e solúvel, desmanchando-se em lembranças falsas, de uma alegria que nunca vivi e que talvez por isso mesmo me pareçam tão relaxantes. O táxi em que eu estava andava devagar pelo centro da cidade. As filas intermináveis de carros iluminavam, junto com os misteriosos milhões de luzes de natal, o coração escuro e sem luar das avenidas e prédios. Meu reflexo brilhava leve na janela fechada.Pensando um pouco, talvez eu saiba por que eu gosto tanto das luzes de natal. Acho que elas me fazem parar de pensar. É como se quando olhasse para as luzes, para aquele piscar eterno, o meu cérebro, não, a minha alma parasse de funcionar por breves instantes. Devo estar exagerando. Eu sempre exagero, mas se as luzes não me fazem parar de pensar, então elas, ao menos, retardam meu pensamento.

- Mudei de idéia. O senhor poderia encostar na próxima esquina, por favor?
O taxista não pareceu muito contente. Afinal, ele esperava que a viagem nos levasse até o outro lado da cidade, como eu havia instruído anteriormente, mas era véspera de natal e as paredes sem vida da minha casa alugada pareciam bem menos aconchegantes que as paredes antes cinzas dos prédios e agora verdes, vermelhas, amarelas, laranjas, roxas, azuis e todas essas cores intercaladas e alternadas na dança das luzes.
Assim que eu pus os pés fora do táxi e comecei a andar pelo centro iluminado, percebi o acerto da minha escolha. As ruas estavam quase desertas. As exceções eram uma igreja logo mais a frente, onde um barulho abafado que provavelmente era uma música, viajava até os meus ouvidos, misturando-se com os sons da outra exceção, uma festa no primeiro andar de um prédio não muito longe. As duas exceções possuíam muito em comum, como as pessoas sorridentes, o abuso da cor vermelha nas roupas, as mãos dadas (pais, filhos, amantes, amigos) e principalmente o ar único da noite de natal. Difícil de explicar esse último. Vou deixar só assim mesmo. O ar da noite de natal. Inacreditável como mesmo fora destes lugares este ar me atingia em cheio. Era uma vontade de sorrir que beirava o ridículo, mas como as poucas pessoas que ainda estavam nessa avenida, assim como eu, vestiam o mesmo sorriso, o ridículo tornou-se normal e eu sorri a vontade.
Foi quando eu vi nitidamente uma criança na rua. O que me chamou a atenção não foi o chapéu largo que ela usava na cabeça e nem o pesado casaco de mesma cor que a cobria até seus joelhos, apesar da noite estar bastante quente. O que me fez atravessar a rua e tentar ajudar era que a criança estava sozinha e olhava rápido para os lados.
- Oi? Licença. Você está perdido?
- Moço! Você tem que me ajudar. Eu não quero voltar, eu prometi que ia ver a Árvore, eu tenho que ir!
O garoto segurava nas minhas roupas. Aquilo me pegou de surpresa e eu logo olhava para os lados assim como ele.
- Calma garoto. Você está perdido? Procurando alguém, não é?
- Não moço! Eles que vão me levar de volta! Mas hoje eu não posso, eu tenho que ver a Árvore, eu prometi! - E então o ar de urgência do menino ficou tão absurdo que parecia teatral. Mesmo sem carregar o menor vestígio de mentira.
- Moço. O senhor tem que me levar lá! É noite de natal e ninguém pode me levar! Pode ser a última chance que eu tenho moço!
- Calma garoto – Eu o segurei pelos braços para ele parar de olhar para os lados e ser obrigado a olhar para os meus olhos
– Cadê a sua família garoto?
- Longe . . .
- E quem vem te buscar?
- Os seguranças do hospital. Eu . . . Moço me solta, se o senhor não me levar eu dou um jeito de chegar lá sozinho!
Ele se balançou tão fraco nas minhas mãos, que o esforço que eu tive que fazer para segurá-lo era  desprezível para os cálculos físicos.
Eu ponderei minhas opções. Certo. Tem um garoto louco no meio da rua, na noite de natal, vestindo um chapéu no mínimo extravagante e querendo chegar até a Árvore. Ou como ele dizia: lá. Onde era lá, ou a árvore, ou seja onde quer que fosse, eu não fazia a menor idéia do que ele estava dizendo.
Opção 1: Agir como qualquer ser humano agiria no meio de uma cidade deste tamanho. Viraria as costas e tentaria encontrar um lugar mais seguro o mais rápido possível. Meu terno e gravata poderiam muito bem chamar atenção de assaltantes e quem sabe eu tivesse cara de bonzinho e estivesse sendo assaltado?
Opção 2: Agir como um ser humano já não tão normal, mas tomado pela magia da noite e tirar do bolso algum dinheiro e dar ao garoto para ele chegar onde quisesse, comprar qualquer brinquedo, usar drogas, enfim.
Opção 3: Ser malvado e entregar o garoto para a autoridade mais próxima. Essa opção só cruzou rápido pela minha cabeça. Eu não teria coragem de fazer isso, de qualquer jeito.
Ponderei por um milésimo de segundo as minhas opções e estava decidido a entregar umas notas ao garoto e ver-me livre daquilo. Talvez eu ainda conseguisse lembrar do rosto dele antes de dormir e me sentir confortavelmente feliz por ter ajudado. Mas aquilo seria ajuda? Eu sempre me perguntei o que é ajudar alguém. É dar dinheiro, comida, roupas e coisas que me sobram? É fazer uma “boa ação” para me sentir bem no meu travesseiro? Eu não sei se o semblante urgente do garoto fez eu pensar tudo isso, ou se foram as luzes de natal e toda a emoção da noite mas a opção que eu escolhi foi a opção secreta número 4: agir como uma personagem de filme de ação, colocar o garoto dentro de um táxi e ver onde isso iria levar minha noite.
Dentro do táxi (com um taxista que parecia muito mais paciente por estar trabalhando na noite de natal do que o primeiro), o garoto pareceu mais confortável. Quem respondeu para o motorista onde iríamos foi ele: “Para a Árvore”, ele disse. Eu me preocupei que o taxista fosse nos expulsar do carro irritado com a piada, mas ao invés disso ele sorriu e seguiu pela avenida. O garoto olhou pela janela traseira do carro algumas vezes, e eu talvez enxerguei alguns vultos brancos ao longe acompanhando seu movimento, mas provavelmente, foi só imaginação minha.
- Er . . . Obrigado moço.
- De nada. Mas, o que realmente eu estou fazendo pra você me agradecer?
O garoto sorriu. Seu rosto era muito mais bonito do que eu havia imaginado antes. Uma pena a pele dele ser assim tão branca, tão pálida e que seu chapéu preto quase escondesse seus olhos. Eu não via um fio do seu cabelo.
- Eu tomei um susto quando o senhor me colocou no táxi. Achei que o senhor fosse só me dar um dinheiro ou sair correndo . . .
Ele lia mentes?
- Bom, eu realmente pensei nessas coisas. Mas você me intrigou um pouco . . . E, pensando bem, você não tem medo de eu estar pensando em fazer algo ruim com você? Você nem me conhece.
- É, não conheço. Mas o senhor tem cara de bom.
- E isso é suficiente pra saber se alguém é bom?
- Não, mas eu vou tomar minhas chances.
O sorriso agora foi ainda mais relaxado e era impossível não sorrir também. Era incrível como este garoto falava como adulto. Não só pelas palavras, mas também pela tonalidade da sua voz séria. Séria mas frágil, baixa até. Eu imagino o esforço que ele fazia para aumentar a voz enquanto estávamos na rua.
- Bom, acho que você deu sorte dessa vez, mas é meio perigoso entrar em um carro com um desconhecido em uma cidade desse tamanho.
- Todo mundo diz que é perigoso, mas quantas vezes você já ouviu falar de pessoas que entraram em carros com estranhos e morreram?
- Acho que-
- Sem contar nos filmes.
- Então-
- Nem novelas e livros.
- Ok. Nenhuma. Mas isso não quer dizer que não seja perigoso.
Ele me olhou como se tivesse acabado de provar o contrário. E ele tinha.
- Perigoso ou não, é melhor evitar.
- Certo. Até porque não é todo dia que eu procuro na rua alguém pra me ajudar.
- E isso nos trás a pergunta que não quer calar. Você quer me explicar a história inteira de uma vez ou eu vou perguntando?
Ele sorriu novamente, agora completamente relaxado. Ele olhava pela janela (com certo esforço por causa da sua altura), completamente extasiado. As luzes, as pessoas, os sons, tudo, absolutamente tudo parecia fazê-lo alegríssimo. Eu imaginei que ele só não abrisse a janela porque senão seria obrigado a falar mais alto.
- Er . . . Acho que eu posso contar tudo de uma vez. Não é complicado. Eu moro em um hospital. Eu queria muito ver a Árvore-
-Desculpa, mas o que exatamente é essa Árvore ?
- Você não é dessa cidade, é? – Ele me perguntou depois de alguns instantes ponderando.
- Não. – Admiti – Vim aqui a trabalho. Minha família mora longe.
- Imaginei. Então, a Árvore é uma árvore de natal gigante que é acesa todo ano somente na noite de natal. Impossível você não ter ouvido falar nisso...
Depois que ele falou, lembrei de ver algo parecido na primeira página do jornal da manhã. Fiz uma cara de entendimento e balancei a minha cabeça positivamente.
- Certo. Então, eu queria muito ver a Árvore e eles não me deixaram sair. Eu não posso sair muito. Enfim, eu fugi e estou aqui.
- Ai meu deus. Acho que vou levar você de volta. – E minha mão já estava a meio caminho de tocar no ombro do taxista.
- Não! Espera! Eu tenho que fazer isso, eu prometi pra Natalí . . .
- Pra quem?
- Natalí. Minha amiga. Do hospital. Ela fez eu prometer que eu visse a árvore esse ano. Pelo menos um vez.
- E por que ela não veio junto?
- Ela . . .
Os olhos do garoto se perderam nas luzes da avenida. O jeito com que todo o seu corpo tremeu me disse exatamente o que tinha acontecido com essa sua amiga, eu tentei desviar o assunto.
- Você não me disse seu nome ainda.
- O senhor se importa se eu não disser?
Como ele era adulto!
- Não, não me importo, mas então você também não vai saber o meu.
Ele me olhou como se isso não importasse e voltou a absorver cada metro da avenida.
Continuamos em silêncio assim por um tempo. Até o fim da viagem, na verdade. Acho que essa Natalí deveria ser realmente importante pra ele, seja lá quem ela fosse. Eu resolvi respeitar seus sentimentos mesmo tendo muitas perguntas, até porque, nenhuma dessas perguntas iria levar a conversa para um lugar menos doloroso (onde estava sua família, por que ele morava em um hospital etc). Tinha alguma coisa engraçada sobre esse garoto pálido. Nós nunca havíamos nos encontrado e o silêncio no interior do carro não era nem um pouco desconfortável, pelo contrário, era genial o jeito com que eu conseguiria respirar tranquilamente aqui dentro. Normalmente eu só ficava tão a vontade com meses de relacionamento.
Depois de um tempo, paramos em frente de um parque gigantesco com uma massa escura no centro do lago mais a frente, obscurecendo a visão dos prédios do outro lado do parque. Eu imaginei que essa fosse a Árvore.
Descemos do carro, paguei o motorista agradecendo e me virei para o parque.
- Obrigado motorista. Feliz natal pro senhor.
Esse garoto não parava de me surpreender.
O parque estava cheio. Muitas crianças corriam de um lado para o outro, muitos casais abraçavam-se, muitas luzes piscavam e o ar de natal (já apresentado anteriormente) impregnava maravilhosamente o ambiente.
Eu estiquei a mão para o garoto sem-nome que andava comigo e ele a tomou enquanto andávamos na direção da árvore. Era como se eu estivesse segurando uma folha de papel, de tão frágil que sua mão parecia. Ele já parecia mais animado.
- Escuta, é meio chato eu ficar chamando você de você. Você não pode me dizer o seu nome?
Ele ponderou por um instante, mas acho que o ar de natal estava fazendo efeito em seus pulmões.
- Certo, mas falamos os nossos nomes de uma vez só então, que tal?
- Pode ser, eu conto até três então.
Ele esperou a contagem e gritamos juntos:
- Pedro!
- Pedro!
A minha cara de surpresa era a mesma que a dele, mas foi inevitável dar risada pelos próximos minutos. Quais eram as chances de isso acontecer, eu pensei.
- Qual é a chance de isso acontecer? – Ele disse ainda sorrindo.
Eu estava começando a imaginar que ele realmente lia mentes.
Conforme entrávamos mais na multidão, ficava mais difícil de ver a Árvore e a voz baixa de Pedro era difícil de ser ouvida.
Mais a frente quando a multidão apertou-se ainda mais, ele ficou com bastante dificuldade de se mover. Eu abri meus braços em direção a ele, fazendo menção de levantá-lo.
- Posso?
Ele fez que sim com a cabeça e quando ele já estava com as pernas firmes no meu ombro e sua mão segurava precariamente no meu cabelo para não cair ele acrescentou com um sorriso:
- Obrigado Pedro.
- De nada. Pedro. – Eu respondi.
Era engraçado o quanto eu estava me divertindo com a situação e quanto essa noite de natal já era inesquecível. Eu não queria perder laços com esse garoto.
Mais à direita de onde nós estávamos, havia uma roda gigante. Eu imaginei que de lá de cima, a imagem da Árvore acesa seria perfeita.
- Ei, Pedro. – Eu disse olhando pra cima.
- Fala Pedro.
- O que você acha de irmos para aquela roda gigante ali? – Apontei. Os seus olhos brilharam.
- É sério?
- Claro.
- U.a.u. Eu nunca andei em uma antes!
- Nem eu . . . Deve ser coisa de Pedro.
Ele sorriu e parecia muito mais animado agora. Acho que enfim ele tinha esquecido a sua amiga Natalí. Eu fiz uma anotação mental para não mencionar o assunto novamente. Pelo menos não essa noite.
A roda gigante era, claro, gigante. Olhando de perto para a altura absurda até onde os metais subiam, eu me perguntei por que nunca tinha andado em uma antes. Eu não tinha problemas com altura. Acho. Vai ver eu nunca tinha aproveitado as oportunidades.
Coloquei Pedro no chão, comprei os ingressos que, milagrosamente, eram os dois últimos (parece que muitos queriam ver a Árvore acessa de lá de cima também) e subimos em um dos carrinhos. Conforme ganhávamos altura, meu estomago se comportava de maneira engraçada.
- Você tá com uma cara estranha . . . – a voz de Pedro parecia preocupada de verdade.
- Hummm. Acho que eu sou meio medroso de altura.
- Você já ouviu falar de alguém que morreu em uma roda gigante?
- Vale em filme?
Ele sorriu negativamente.
- Então não . . . Dá pra usar esse raciocínio sempre?
- Er . . . Eu uso. Funciona bastante pra mim. Deve ser coisa de criança.
Depois de um tempo, comecei a ouvir uma contagem regressiva abafada, vindo da multidão lá embaixo. Nós estávamos exatamente no ponto mais alto da roda gigante e ela parou para os usuários apreciarem melhor a Árvore sendo acesa. Era inacreditável a nossa sorte, era o melhor lugar para assistir ao espetáculo.
- Vai acender! – Eu parecia mais animado que ele.
Pedro fez que sim com a cabeça sem desgrudar os olhos da Árvore e o espetáculo foi muito mais bonito do que eu havia imaginado.
Uma luz branca passou por toda a extensão da árvore, começando pelo chão e rodeando-a inteira, até acender a enorme estrela no topo. Quando esta estrela estava acesa, várias outras, por todo o corpo da árvore, ascenderam-se também. Primeiro as azuis, depois as vermelhas e de uma só vez, as de todas as outras cores. Depois, todos os enfeites que representavam o papai Noel e suas renas ascenderam-se em uma ordem que fazia o trenó mover-se no escuro das partes ainda não iluminadas e então, mais rápido do que eu esperava, todas as luzes da árvore acenderam-se de baixo para cima, até alcançarem a estrela já iluminada, enquanto esta, explodia em lindos fogos de artifício que subiam muito alto no céu e dividiam-se em outros tantos fogos com um som suave e toda a multidão aplaudia fervorosamente. Eu não pude deixar de me juntar ao coro de palmas e estranhei quando não ouvi outras mãos se baterem no carro que eu estava. Olhei para Pedro e ele estava com as mãos no rosto. Lágrimas corriam leve pelo seu rosto.
- Ela . . . – Ele dizia – Ela . . . Ela não pôde ver.
E então ele explodiu em um choro baixo, lágrimas soltas pelo seu rosto. Enfim, uma criança. Eu instintivamente abracei Pedro e assim que meus braços o seguraram pela cintura eu senti seu corpo leve aceitando e fechando-se em meu abraço.
- Mas você cumpriu sua promessa, não cumpriu? – Eu disse baixo em seu ouvido.
- Cumpri. M-Mas eu que-queria que ela tivesse visto! Não é justo! Você viu como foi bonito? Ela nem pôde ver!
- Pedro – Eu tentei usar o meu tom mais leve e amigável. Eu espero que ele não tenha notado que eu estava lutando com as lágrimas – Eu vou entender se você não quiser me dizer, mas o que aconteceu com a Natali?
Parecia que ele teria me contado mesmo se eu não tivesse perguntado. Porque eu nem havia acabado a minha pergunta quando ele começou a falar com mais raiva do que qualquer outro sentimento. Ele soluçava e falava tão rápido que eu tive que me esforçar para entender.
- É injusto! Ela tinha a mesma doença que eu. Nós moramos há bastante tempo no hospital, sabe? Acho que uns 5 anos. Ela tinha 12 anos, a mesma idade que eu . . . eu queria tanto que ela visse isso! – Ele parou para deixar as lágrimas escorrerem – Acontece que a nossa doença não tem cura e ela morreu na semana passada . . .  Ela queria tanto ver a Árvore! Ela sabia que não ia dar tempo. Por isso ela fez eu prometer que viria por ela . . . Agora eu . . . Eu . . . – Ele me olhou como se fosse contar algo que tinha vergonha de contar – Eu também estou com medo . . . Estou com medo de morrer e não ver mais essa Árvore, ou todas as outras do mundo . . . É injusto! Eu não quero morrer.
E agora ele desabou nos meus braços com soluços tão contínuos e violentos nos meus ouvidos que meu coração afundava a cada um deles. Eu abraçava ele forte e sentia seu corpo frágil, frio, fino, apertar o meu com a pouca força que tinha. Eu não conseguia mais lutar com as minhas lágrimas, desabei também em choro. Não fazia a menor idéia da ultima vez que tinha chorado. Mas não foi só tristeza que o que Pedro despertou em mim. Ele me acordou. Se era injusto? Era intoleravelmente injusto!
12 anos. . .
12 anos!
12 anos e já tão ciente da própria morte. Já tendo que tomar sabe-se lá quantos remédios. Preso em paredes sem vida, sem cor, sem poder ser criança. Com medo da morte! Uma criança.
Aquela noite não tocou meu coração. Aquela noite mudou meu coração.
Pedro, involuntariamente fez um movimento brusco com a cabeça, acho que tentando enfiá-la entre meus braços e esconder um pouco seus soluços, seu chapéu caiu e eu entendi porque não tinha visto nenhum cabelo antes.
Porque não tinha nenhum cabelo.
Sua cabeça era diferente, mas não o deixava feio. Eu o abracei ainda mais forte. Não tinha como eu achar esse garoto feio ou repugnante. Nem se ele tivesse a diferença física mais estranha do mundo.
Aquela criança tinha mudado minha vida. Aquelas palavras me marcaram demais. Me marcaram como o fogo marca o corpo:
“Acontece que a nossa doença não tem cura . . .”
“Morreu semana passada . . .”
“Estou com medo de morrer. . . é injusto!”
Uma criança.
Que doença incurável eu tenho que me impediu de ver espetáculos como esse antes? Que me impediu de andar em uma roda gigante? Que medo de morrer eu tenho que me faz perder o sono, produzir lágrimas e tomar remédios? Que noção de morte eu tenho? Melhor. Que noção de vida?
Que noção de vida?
Com certeza menor do que qualquer noção que este garoto nos meus braços tem.
A multidão lá embaixo continuava a comemorar a noite. Apática às dores no coração deste garoto e do novo coração que eu carregava agora. Tudo na minha vida tinha mudado.
Pedro se afastou lentamente, enxugou um pouco as lágrimas e percebeu que estava sem chapéu. Seu olhar assustado o buscou no chão e depois de achá-lo o garoto foi rápido enfiá-lo na cabeça. Eu segurei sua mão.
- Ninguém consegue te ver aqui. Esse chapéu deve ser desconfortável. – Eu percebi que a minha voz tremia e soluçava.
- Eu. – Ele jogou o chapéu no chão – Estou cansado. Você me leva de volta?
- Claro. Você vai cansar de tanto me ver agora.
Ele sorriu, subiu de novo nos meus braços e fechou os olhos.
A roda gigante voltou a funcionar e começamos a descer.
- Você acha que a Natalí viu? . . . Através dos meus olhos?
Eu senti o azedo de mais lágrimas que desciam pelo meu rosto.
- Eu tenho certeza que sim.
Ele sorriu cansado, quase perdendo a consciência. Eu o segurei firme nos meus braços. Ia levá-lo até o hospital hoje, assim, nos meus braços, e amanhã comprar um belo presente de natal e no futuro, fazer o que estivesse no meu alcance para ajudá-lo. Por agora, era esperar o nosso carro na roda gigante alcançar o chão, atravessando essa noite mágica, agora muito mais iluminada pelas luzes fantásticas da Árvore.
Pedro puxou de leve a minha camisa quando eu o carregava nos braços para fora do parque. Eu olhei para seu rosto e ele o levantou para que o chapéu não atrapalhasse a minha visão de seus olhos. A voz dele era quase um sussurro, quase inconsciente, dominada pelo sono e pelo esforço excessivo. Eu o levantei para que sua boca ficasse no nível de meus ouvidos e sua voz e o significado que ela carregava encheram meu coração de maneira mais eficaz do que qualquer outra coisa no mundo poderia ter feito.
- O- Obrigado. . .
E ele enfim adormeceu nos meus braços, derrotado pelo cansaço, enquanto a multidão continuava a comemorar o natal e as luzes monótonas da cidade piscavam em todas as direções.
Agora, para mim, muito mais mágicas que no início da noite.


João Tavares

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